Nhô Caboclo (Manuel Fontoura)

Cap12-292

Eu fazia qualquer coisa, qualquer lembrança que vinha no corgo. Corgo é um sentido, é uma coisa que aquele que não tem o dom pode ter. Eu não tenho o poder de possuir o dom, sou perverso, mas tenho corgo, que é a pessoa fechar os olhos e, o que vier no sentido, fazer.

Eu não imito ninguém. Tudo o que eu faço é carcatura minha mesmo, as carcaturas que eu quero fazer. Antigamente eu prinspiei a fazer um piscuí de acubagem: uma pecinha morta, que não tinha graça. Depois eu peguei a fazer peça manual pra trabalhar no vento, com um corta-vento, ligado a um vaivém, do jeito da máquina do trem que locomove uma elce. Aí a elce trabalha e em tudo que o vaivém tiver enganchado tem de bulir: todo mundo trabalhando. Depois disso, prinspiei a fazer a roda-d’água: a caçamba enchia de água, ficava pesada, aí as máquinas tinham força pra puxar um dínamo e moer a cana. (…) Agora, hoje eu faço mais uma elce, com dois bonecos puxando o toré, que tem quinze bonecos, e o aricuri, que é o de mais bonecos. Se eu botar tudo, é uma sociedade de caboclo inteira.

Quando foi depois, eu vim aqui pra cidade. Aí, eu fiz que me perdi. Fiz uma engrenagem pra ficar trabalhando em Casa Amarela, lá na Travessa Padre Lemos, bem em frente da biblioteca. Eu trabalhando e o pessoal gostando. Eram seis meses de verão sem arredar dali, fazendo equilibrista, sinaleiro, lutador de espada, toré, aricuri, girador, rodante, escravidão, vendedor de arroz, esqueleto, caveira. (…) Dei também pra fazer peça de passarinho e racho – racho é um trabalho estaleado, vazado. Antigamente eu fazia talha, mas muita gente pegou a trabalhar igual, aí eu deixei pra ser diferente dos outros. Esses que fazem talha, pra mim, são apenas uns grandes desenhistas em corte.

Não gosto de fazer peça moderna, inspirada em outra, bem carcaturada, bem copiada, que a gente fica sem saber se pode dizer que é uma escultura ou um marnequim. Peça muito carcaturada é marnequim que é pra botar em alojamento de material de pano, esses que a pessoa faz o vestido da mulher e bota ali pra demonstrar a venda. Não gosto de coisa de loja. Gosto de trabalhar peça pra museu: museu de matuto. Peça tem de ser matuta: peça ruta que tem mais valor que a moderna. Estrangeiro é que dá valor a essas. Ele traz as peças modernas de lá pros brasileiros, que gostam muito só porque é de lá, mas os estrangeiros gostam de peça matuta, que tem história. Peça moderna não tem história, feito as de igreja, que são muito carcaturadas e ninguém arranja uma história pra contar. Minhas peças têm história. Gosto de fazer peça de penas e guerras. É muita luta e o derradeiro a ficar vivo sou eu mesmo.

Localização

Pernambuco, Recife

Endereço

Recife, Pernambuco

Livros

O Reinado da Lua