Mestre Dezinho

Cap08-184

Um dia começaram a reformar a igreja da Vermelha, bem junto da praça onde eu dava vigia. Então o padre me chamou pra eu fazer as armações de madeira. Ele já tinha visto uns ex-votos que eu continuava a fazer quando recebia uma encomenda. Quando o decorador da igreja resolveu tirar os santos de gesso e botar outros de madeira, o padre, que conhecia meus ex-votos, achou por bem que eu fizesse os santos e do tamanho de gente. Eu temia botar a madeira a perder. Eu só sabia fazer partes de gente, e queriam que eu fizesse logo o Cristo da primeira vez! Sofri e suei muito, e não era de calor nem de cansaço, era de agonia mesmo. Acabei fazendo o Cristo, mas os pés dele não conseguiram ficar um sobre o outro – ficaram emparelhados mesmo. A segunda imagem foi de Nossa Senhora de Lourdes. A recomendação era de não copiar nada e fazer do meu jeito. Meu receio maior era em relação ao bispo: o que é que ele ia achar? Pra mim era muito esquisito tirar aquelas imagens de gesso, todas pintadas, retocadas, pra botar as de um Dezinho qualquer. Eu dizia: ‘Se o bispo vier reclamar, eu digo que o culpado é o senhor.’ Eu nem queria fazer! Eu estava muito nervoso até o dia em que o bispo chegou. Ele não apenas gostou como ficou entusiasmado: ‘Você vai ser o segundo Aleijadinho!’ E eu nem sabia quem era esse. ‘Você vai ser um grande escultor!’ E eu nunca tinha ouvido esta palavra – escultor. Mas o bispo me explicou tudo, e hoje eu conheço bem as obras do Aleijadinho.

Localização

Piauí, Teresina

Endereço

Teresina, Piauí

Livros

O Reinado da Lua