Ana das Carrancas (Ana Leopoldina Santos Lima)

Cap04-0101

Parece que tenho quinze anos. Pra minha arte parece que estou nascendo agora. Logo que cheguei em Petrolina pedi a São Francisco de Chagas e a Padim Ciço que mostrassem uma forma de ganhar dinheiro. Eu estava num fracasso, fazendo pote e panela e tinha muita louceira. Então roguei que me desse uma luz, me ajudasse, me orientasse pra que eu melhorasse minha situação, pra que minha filha pudesse estudar e meu marido não pedisse mais esmolas, que eu prometia, doente e sadia, trabalhar domingos e dias santos. Um dia fui pro rio, que eu carregava água do São Francisco em lata. Aí, lá, lembrei-me daquilo que eu tinha pedido. Vi que tinha barro de várias espécies: branco, verdinho, amarelado – eu uso todos misturados. Então fiz um barquinho o pensei assim: nessa água tem muito peixe, pode ter até peixe que ofende uns aos outros. Se o barqueiro fizesse uma carranca, um bicho feio, aquela caveira de um animal e botasse no beiço do paquete e pescasse, uns peixes admiravam e os outros não atacavam, como a piranha, que come os outros peixes. Fiz o barquinho de barro e botei o nome de Gangula. Pensei: nesse barco viaja um velho com um menino pra vender jerimum. Botei o velhinho dentro com os jerimuns – uns bolinhos de barro pra fingir que era jerimum – e o menino. E fiz a cobertinha de barro, pensando que era palha, e a carranca na frente. Deu sorte.

Eu tenho que entender que foi o barro, a terra que vai me terminar. Então foi ele que me deu o direito. Daí eu não me separo dele pra coisa nenhuma, porque eu amo aquilo que ama a mim. A terra, o barro é um caco de mim. Eu me sinto feliz, honrada de trabalhar em cima disso que sei fazer. Tenho calo nos dedos, mas me sinto feliz. É o meu diploma.

Localização

Pernambuco, Petrolina

Endereço

Petrolina, Pernambuco

Livros

O Reinado da Lua